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Wednesday, April 25, 2007

E tu, sabes quem és?



Não sei quantas almas tenho.

Cada momento mudei.

Continuamente me estranho.

Nunca me vi nem achei.



De tanto ser, só tenho alma.

Quem tem alma não tem calma.

Quem vê é só o que vê,

Quem sente não é quem é,



Atento ao que sou e vejo,

Torno-me eles e não eu.

Cada meu sonho ou desejo

É do que nasce e não meu.



Sou minha própria paisagem,

Assisto à minha passagem,

Diverso, móbil e só,

Não sei sentir-me onde estou.




Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.

O que segue não prevendo,

O que passou a esquecer.


Noto à margem do que li
O que julguei que senti.

Releio e digo: «Fui eu?»

Deus sabe, porque o escreveu.


Fernando Pessoa

Pois é, parece que pelo meio do que somos, do que queremos ser e das expectativas que nos são exteriores nos perdemos, por vezes. No meio de tantos estímulos, tentamos descobrir quem somos e o que queremos de nós.. tarefa complicada num mundo em que nem sempre se pode parar para nos escutarmos a nós próprios... Num mundo atarefado, temos duas opções: ou aprendemos a viver na confusão que nos caracteriza enquanto seres sociais (sim, porque mesmo aquele que tem a casa aprumada por vezes sente-se obrigado a arrumar o seu interior...) ou perdemos o "comboio" e vivemos alheios àquilo que o mundo tem de bom. Pois é, parece que entre tarefas escolares, emprego e quaisquer outras obrigações, tem que haver um espacinho para nós e para aqueles que nos merecem, claro! ;)
E pronto, após esta breve nota e visto que acredito que a grande maioria de vós conhece este grande poeta, não vou interpretar mais o poema. Espero que percebam bem :P
Este post é dedicado a um amigo ri-fixe, que diz que de poesia só gosta de Fernando Pessoa- o ortónimo- Ricardo Reis e de Mensagem... Então, hoje aqui fica um post para ti com um dos temas tão característicos do autor. Espero que gostes :)

Wednesday, April 11, 2007

Viva!


Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.
Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas ideias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no Outono.
Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados. Sobra cobardia e falta coragem até para ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo traí. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza.
O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si. Não é que a fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. Para os erros há perdão; para os fracassos, chance; para os amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morreu esteja vivo, quem quase vive já morreu.


Fernando Pessoa