
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: «Fui eu?»
Deus sabe, porque o escreveu.
Fernando Pessoa
Pois é, parece que pelo meio do que somos, do que queremos ser e das expectativas que nos são exteriores nos perdemos, por vezes. No meio de tantos estímulos, tentamos descobrir quem somos e o que queremos de nós.. tarefa complicada num mundo em que nem sempre se pode parar para nos escutarmos a nós próprios... Num mundo atarefado, temos duas opções: ou aprendemos a viver na confusão que nos caracteriza enquanto seres sociais (sim, porque mesmo aquele que tem a casa aprumada por vezes sente-se obrigado a arrumar o seu interior...) ou perdemos o "comboio" e vivemos alheios àquilo que o mundo tem de bom. Pois é, parece que entre tarefas escolares, emprego e quaisquer outras obrigações, tem que haver um espacinho para nós e para aqueles que nos merecem, claro! ;)
E pronto, após esta breve nota e visto que acredito que a grande maioria de vós conhece este grande poeta, não vou interpretar mais o poema. Espero que percebam bem :P
Este post é dedicado a um amigo ri-fixe, que diz que de poesia só gosta de Fernando Pessoa- o ortónimo- Ricardo Reis e de Mensagem... Então, hoje aqui fica um post para ti com um dos temas tão característicos do autor. Espero que gostes :)
